segunda-feira, 2 de maio de 2016

Seus olhos nos meus


Foto: Divulgação/Internet
Por Adriano oliveira

Água que vira pó, secura de lamentar minha falta de escamas. Mês passado ainda bebi do Riacho Torto, agora o gado escarafuncha no barro atrás de gole d´água, até os cururus estão sumindo, espero que a chuva volte logo ou vou virar tronco seco de caatinga.
Coronel Simão já deu a ordem de mudar as famílias pra escola da cidade, pelo menos lá as crianças não vão morrer de sede, mas eu tenho que ficar e cuidar do gado, se morrer ao menos um, sei que o couro do bicho vai fazer companhia ao meu na fábrica de sandálias lá na cidade. Hoje a noite ta mais fresca e posso sentir o vento úmido que vem do mar, se bem que estamos a mais de cem quilômetros da praia, mas sertanejo bom aprende a lidar com as coisas do tempo desde criancinha, meu avô dizia que ia chover com cinco dias de antecedência, e nunca errou, colocava o feijão na terra e o danado brotava bonito que só.
Céu azul de ofuscar o olhar, só não me ofusca mais que o olhar de Mariazinha, “eita” olho azul, de fazer cego voltar a enxergar, cada vez que ela passava eu ficava lá babando tanto que podia encher o açude todo, mas olhar era tudo que eu podia fazer. Amor de minha vida e de minha morte...
É, foi assim que conheci de perto a secura da terra onde nasci, e donde vim a morrer.
Mas antes de virar pó eu pude sonhar na imensidão daqueles olhos. Durante anos eu vivi entre o amarelo do chão e o azul dos olhos dela. Ela nunca me correspondeu um olhar que fosse, mas eu não ligava, enquanto ela vivesse pra eu admirar, seria o homem mais feliz da terra.
Outro dia tava levando a boiada lá pras bandas do Rincão quando se deu o acontecido. Era pra mais de quarenta bois, estava tudo muito calmo naquele dia, os bois seguiam o guia sem demandas, o silêncio no sertão as vezes é assustador. Quando passava perto da casa grande vi Mariazinha passeando pelo jardim da casa, foi nessa hora que tudo se sucedeu... Uma cascavel surgiu no meio da tropa e o estouro foi inevitável...
Não pensei um segundo que fosse e corri com meu cavalo na direção de minha amada, cheguei a tempo de apear do xucro, e me colocar entre ela e os bois... Consegui desviar os danados antes que chegassem até ela, nesse instante olhei pra trás e vi minha menina com o olhar assustado e pela primeira vez olhando pra mim. Ela soltou um grito e mal tive tempo de olhar pra trás... O último desgarrado me atingiu com força...
No chão, olhando pro céu, via aquela imensidão sem fim. Sentia o sangue na garganta e não conseguia respirar direito, minhas forças me foram tiradas, não conseguia me mexer. Foi nesse momento que tudo ficou azul de novo. Sobre mim, Mariazinha me olhava dentro dos olhos. Senti a chuva cair dos seus olhos, não entendia como podia chover num azul tão profundo... Meus olhos foram se fechando e fui virando poeira... Em meu rosto o sorriso de quem teve todos os seus desejos atendidos.
Seus olhos nos meus.

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