terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Genocídio moral


Não é segredo para ninguém que o porte de armas nos EUA é o que se pode chamar de instituição nacional, quase um dever cívico. Logo, adquiri-las na terra de Reagan, Obama e Mark Chapman é tão fácil quanto – ou até mesmo mais – comprar pães. Sem grandes esforços, especialmente nos confins republicanos e povoados pelos red necks, é possível encontrar várias casas nas quais haja pelo menos uma espingarda ou arma calibre 22.

Os motivos para o estadunidense médio – aquele cara que votou por duas vezes em George W. Bush, assiste ao noticiário da Fox News como muitos brasileiros o fazem com a Globo e ao lerem a Veja e não perde nenhuma corrida da Nascar por nada – tê-las transitam no dualismo segurança-diversão. O status de etnocentrismo disfarçado direito à liberdade individual por lá atingiu níveis inimagináveis ao ponto de o indivíduo sentir-se obrigado a ter uma arma para, em casos de invasões domésticas – exceto quando for um ladrão disfarçado de Papai Noel –, ter como defender a si próprio e aos seus. Por outro lado, a caça, seja a aves, ursos ou a seres imaginários, é um dos passatempos mais comuns e macabros por lá. Isso sem contar que muitos pais levam os seus rebentos para esses, digamos, rituais como se os levassem para jogar basquete ou futebol, por exemplo.
Mesmo assim, por mais que o proprietário de uma arma seja supostamente equilibrado e apto a portá-la, os riscos de que elas caiam em mãos de pessoas potencialmente mal intencionadas não é pequeno. Não por acaso, ataques genocidas são frequentes por lá. Claro que dirão que isso também acontece por aqui, com referência ao massacre de Realengo (2011). Mas, trata-se de casos análogos e com contextos que, apesar de terem a mesma raiz, tiveram modus operandis diferentes, em especial quanto à aquisição das armas.
Desde o massacre de Columbine (1999) até o de Connecticut, que aconteceu há alguns dias e no qual 26 pessoas, sendo vinte crianças, foram brutalmente assassinadas, não foram poucos os casos semelhantes – de imediato, podem ser citados os ataques de Virginia Tech (2009) e o de Aurora, em Denver, registrado em julho deste ano. Voltando à realidade brasileira, a quantidade de defensores do porte de armas aumentou nos últimos tempos, muito por causa do crescimento da onda de violência. No entanto, por mais criterioso que seja o processo de concessão do porte de armas, sabe-se que a maioria das armas que está em posse do crime organizado é adquirida por meios ilícitos, isso sem contar em roubos domésticos.
Nesse contexto, a leitura do livro Cultura do Medo, escrito pelo sociólogo Barry Glassner e que serviu como base para a produção do documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore, é obrigatória. A obra aborda uma série de aspectos da sociedade estadunidense nos quais pode-se perceber uma espécie de política do medo e da paranoia que incita a muitos cidadãos a recorrerem a saídas extremas, inclusive ao porte de armas. Claro, Tiros em Columbine, assim como Fahrenheit 11/9, também de Moore, são recomendáveis. Ainda sobre Columbine, especificamente, Gus Van Sant (Gênio Indomável, Paranoid Park e Últimos Dias) dirigiu o filme Elefante (2003), no qual os dias anteriores à tragédia são narrados de acordo com os pontos de vista de personagens variados, inclusive os dos autores da chacina.
Será que pegar em armas é a melhor alternativa para a resolução de problemas? Não soa contraditório ouvir discursos de “cidadãos de bem” que anseiam por tempos de paz, mas que não hesitam em pegar em armas, quando preciso? Um tal Mahatma Gandhi, que liderou a independência da Índia em relação à Inglaterra sem precisar usá-las, dizia que uma pessoa deveria ser a mudança que ela desejava ver no mundo

Mau Jr.

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